REGISTROS FOTOGRÁFICOS

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2 de out de 2017

Neste sábado passado 30/09 Chacrinha completaria 100 anos e seu legado ainda vive


Tropicalista, meio bossa nova e rock’n’roll. Ele veio para confundir e não para explicar. Chacrinha era tudo isso e muito mais — era um comunicador nato que comandou as massas de todo o país durante quatro décadas. O Velho Guerreiro foi revolucionário e hoje, quando completaria 100 anos, ainda deixa órfãos os telespectadores.

Embora tenha sido a tevê o veículo que o projetou para o Brasil inteiro, foi no rádio que a carreira de Chacrinha começou. Ainda na década de 1940, nas rádios Tupi e Fluminense, onde comandava programas de marchinhas de carnaval e outros ritmos. Na década seguinte, o Cassino do Chacrinha era apresentado no rádio, recebendo nomes como Celly Campelo, uma das precursoras da Jovem Guarda.

Ainda nos anos 1950, veio a tevê, com Rancho alegre e Discoteca do Chacrinha, duas atrações da TV Tupi. E com o novo veículo, a explosão. “Ele era um comunicador nato. É um personagem ambivalente da tevê brasileira. Começa nos anos 1960 como uma coisa escrachada, tropicalista, passa a ser um perigo para os militares na década de 1970 por ter estabelecido uma comunicação de massa eficiente e ressurge na década de 1980, repaginado e com um diálogo estabelecido com a juventude brasileira”, afirma Cláudio Bull, professor de estética aplicada à comunicação no Iesb.

Biógrafo do Velho Guerreiro, Denilson Monteiro ressalta, porém, que o sucesso do apresentador não veio rapidamente. “Demorou uns 25, 28 anos. Isso só aconteceu quando Edgard Morin veio ao Brasil e disse que ele era o papa da comunicação brasileira. Ali as pessoas começaram a abandonar um pouco o preconceito contra ele, pararam de dizer que viam o Chacrinha ao passar pelo quarto da empregada e assumiram que assistiam ao programa dele”, diz Denilson, autor do livro Chacrinha: A biografia, ao lado de Eduardo Nassife.

O ator Stepan Nercessian pode ser apontado como um especialista em dar vida a Chacrinha. Desde 2014 ele é o protagonista de Chacrinha — O musical no teatro e, este ano, repetiu o papel em Chacrinha — O eterno guerreiro, exibido recentemente no Viva e na Globo. Quando está no palco, Stepan sente na pele a força do apresentador: “As pessoas se emocionam, choram, riem, aplaudem, cantam. Comportam-se como se estivessem no auditório do programa. Mesmo os artistas que eram atração no Cassino, na Buzina do Chacrinha, não se contêm, sobem no palco, me abraçam, me beijam como se estivessem reencontrando o Velho Guerreiro”, conta o ator.

Atual presidente da Funarte, Stepan foi ao programa de Chacrinha duas vezes como convidado e ressalta a importância dele para a cultura nacional: “Esse centenário e suas homenagens estão sublinhando de uma maneira bastante justa a importância do Chacrinha não só para a tevê, mas para a cultura brasileira. Ele era revolucionário. Jogou o Brasil na tela. A contribuição dele para a música é incomensurável. Toda MPB passou por lá. O tropicalismo, o brega, o chique, o rock, o carnaval, a dança. O Chacrinha é a cara de um Brasil que era feliz e sabia.”

Simples e eficaz

O segredo do sucesso de Chacrinha era a simplicidade com que ele entrava na casa das pessoas. “A massa se identificava muito (com ele) por causa da linguagem, do gestual e do humor, com a distribuição do bacalhau da Maria Bethânia. Atingia a todas as classes sociais pela diversidade dos convidados”, atesta Cláudio Bull.

Outra marca que ajudava nessa identificação eram os bordões, como “vamos receber”, “vai pro trono ou não vai”, “eu vim para confundir, não para explicar” e “quem não se comunica, se trumbica”. Não era difícil encontrar àquela época tais frases fazendo parte do dia a dia das pessoas por todo o Brasil. Na verdade, até hoje nos pegamos repetindo os dizeres imortalizados pelo apresentador.

“O ‘roda e avisa’ era uma das marcas dele. Lembro que eu tinha aulas na faculdade e o professor, quando acabava um assunto, dizia ‘roda e avisa’. Isso fica”, recorda-se Denilson. Ele completa que, às vezes, o humor de Chacrinha era usado também para dar resposta a críticos.

O biógrafo lembra que o religioso Dom Marcos Barbosa era um dos que “perseguiam” Chacrinha. Semanalmente, o religioso atacava o apresentador com artigos no Jornal do Brasil. “Chacrinha provocava, respondia, criava bordões, como ‘Dom Marcos é um xarope, só o Chacrinha que dá Ibope’. A fúria do religioso aumentava mais ainda”, conta.


A despedida


José Abelardo Barbosa de Medeiros, o Chacrinha, morreu em 30 de junho de 1988, aos 70 anos, após um enfarte. Cerca de 30 mil pessoas se despediram dele, no velório, aberto ao público. O espaço deixado por ele na tevê brasileira continua aberto.

“A morte dele deixa a tevê brasileira muito mais pobre. É o ícone de uma geração que, ao lado de Flávio Cavalcanti, Raul Gil, Bolinha, participou da solidificação e da formatação da tevê brasileira. Hoje tem o espaço ocupado por nomes bobos e chuchus sem graça como Luciano Huck”, afirma o professor Cláudio Bull.

Para Denilson Monteiro, “ele faz falta porque está tudo roteirizado demais. Quando tem algo que foge do esquema, se destaca. Quando você tem um apresentador que brinca e se autodeprecia, o Chacrinha está presente ali. O Fausto Silva é um herdeiro quando brinca, fala as coisas engraçadas, vai para trás do cenário, mostra o caminho e fala essas coisas todas. O cara que é mais Chacrinha no jeito, na espontaneidade, no não ter preconceito é o João Gordo. Ele é do metal, mas saca tudo da música verdadeiramente popular. Ele é irreverente, brinca, não tem papas na língua. Ele herdou sem querer ser, sem imitar, sem cartola e buzina.”

Como foi a saída de Chacrinha da Globo, na década de 1970?
Ele saiu da Globo porque havia um padrão novo e o Chacrinha não era de se submeter a um controle. Ele saiu depois de ter extrapolado o horário num domingo e invadiu o horário do filme. O Boni se aborreceu e disse que não ia fazer mais o programa. Tentaram o convencer do contrário, mas ele era cabeça dura e acabou indo para uma moribunda TV Tupi. Dez anos depois, a esposa dele, Florinda, intermediou o encontro entre ele e Boni, um acordo de paz entre eles, embora essa desavença existisse apenas pelo lado do Chacrinha, que era cabeça dura. E ele voltou para a Globo no sábado à tarde, horário que ele nunca tinha experimentado.

Chacrinha chegou a ter problemas com a censura. Como foi esse episódio?
Ele chegou a ser preso. Os censores tinham uma tara na roupa das chacretes. Todo programa eles iam ver como elas estavam vestidas. Nos anos 1970, eram shortinhos e já era um acinte. Imagina na década de 1980, com aqueles maiôs cavados e a marca de bronzeado aparecendo. Então, teve um episódio em 1981 que a censora Solange Fernandes queria ver a roupa das chacretes quando ele estava prestes a subir no palco. Mas ele ficava muito nervoso antes de entrar em cena e soltou todos os palavrões que conhecia, e não eram poucos. Ele foi apresentar o programa e ela voltou com a Polícia Federal, que o prendeu. Depois, ele se encontrou com (então presidente) Figueiredo na Granja do Torto, eles conversaram e pararam de persegui-lo.

Os bordões eram uma marca registrada do Chacrinha. Como eles eram criados?
Alguns ele criava, provavelmente trazia da infância dele em Pernambuco, na Paraíba. Outros ele pegava das pessoas. Se ele estivesse conversando com você e você falasse algo que ele achava que era um bordão, ele anotava e criava. Por exemplo, o “rrrrrrealmente” vem do grande ídolo dele, o Cesar Ladeira, um cara que revolucionou o rádio brasileiro. Ele falava com os r muito pronunciado.

Fonte: Correio Braziliense

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